Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.(Gl 2.20).
O que é cristianismo? Essa é uma pergunta que com certeza muitos cristãos já fizeram ou ainda fazem. Mas vamos responder a essa pergunta. Cristianismo é: “Doutrina de Cristo; a religião de Cristo; conjunto das confissões religiosas com base nos ensinamentos de Jesus Cristo”.
Viu como é fácil de responder a essa pergunta? Mas e viver o cristianismo, será que é tão fácil assim como defini-lo? Cremos que não. Portanto, vamos analisar através da vida e experiência do apóstolo Paulo, qual era o cristianismo que ele vivia e ensinava. Qual era esse cristianismo?
O cristianismo da morte para o mundo
Já estou crucificado com Cristo; e vivo não mais eu, mas Cristo vive em mim...
Mas exatamente de que tipo de morte Paulo está falando aqui? Para compreendermos essa frase perfeitamente, precisaremos analisar a “teologia paulina” por trás dela.
Quando Paulo diz que foi ou está crucificado com Cristo, ele quer dizer que a união da fé entre ele e Cristo é tão próxima que as experiências de um são compartilhadas pelo outro. (cf 1CO 6. 15-20). Ou seja, pela fé o crente pode participar da cruz de Cristo, ser sepultado pelo batismo, e desfrutar da vida ressurreta através do Espírito Santo. (Rm 6.3-5).
Então entendemos que aqui Paulo fala da sua morte para o mundo, e isso está de acordo com o texto do versículo 14 no capítulo 6: ”Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo”.
O mundo aqui não é o Kosmos (planeta terra), mas o sistema dirigido por Satanás e que se opõe a Deus. Paulo estava morto pra esse tipo de sistema, porem, ele não o ignorava, pois sabia ele que esse mundo guerreava contra ele o tempo todo para trazê-lo de volta para si. Ele precisava continuar “morto” para esse “mundo”.
Assim também somos nós, devemos estar mortos para esse sistema que se opõe a Deus. Infelizmente muitos cristãos ainda não morreram para o mundo, mas é necessário que o façam. Somente assim poderemos viver o cristianismo que Paulo vivia.
O cristianismo da renúncia
“Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me”. (MT 16.24).
Renúncia não é apenas uma palavra cujo significado é “desistência, recusa, rejeição”, mas é prática no concreto de seu significado. Renúncia não é algo fácil para o ser humano, porque nosso “ego” impõe resistência a tudo aquilo que precisa ser deixado e que geralmente nos causa prazer.
Pra assumir a “cruz” de cada dia, é preciso primeiro renunciar a nós mesmos. E aqui entendemos melhor o sentido de “ego” (ego no grego significa “eu”), ou seja, nosso eu interior.
Dentro de cada um de nós existem coisas que são difíceis de serem “arrancadas”, permanecendo como um constante obstáculo a nossa espiritualidade e o desenvolvimento de um cristianismo verdadeiro.
Mas o que é renunciar a nós mesmo? É a renúncia de nossas razões, paixões, desejos ruins, vaidades pessoais exageradas etc. Isso tudo dentro de nós causa muitas vezes a ruptura com uma vida cristã mais sadia e prospera.
O “eu” precisa ser colocado no lugar dele. E de quantos “eus” nós somos feitos! “Eu faço”. “Eu aconteço”. “Eu brigo”. “Eu disputo”. Etc, etc, etc. São frases comuns de alguns cristãos nos dias de hoje. Era exatamente disso tudo que Paulo havia se livrado, para que o seu cristianismo pudesse ser vivido de maneira cabal, mais profundo, e em Cristo.
Então, o cristianismo de Paulo era:” Deus faz através de mim”. “Cristo acontece através de mim”. “Cristo vive em mim”. “Eu promovo a paz”. “Eu sou um servo”. Olha o que ele renunciou por amor a Cristo e ao Evangelho: ”Se bem que eu poderia até confiar na carne. Se algum outro julga poder confiar na carne, ainda mais eu: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei fui fariseu; quanto ao zelo, persegui a igreja; quanto à justiça que há na lei, fui irrepreensível. Mas o que para mim era lucro passei a considerá-lo como perda por amor de Cristo; sim, na verdade, tenho também como perda todas as coisas pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como refugo, para que possa ganhar a Cristo (Fl 3.5-8)”.
Veja quanta coisa Paulo renunciou por um cristianismo real, verdadeiro, puro... Ele poderia revindicar seu “doutorado” dentro do Evangelho, pois ele havia sido fariseu, um doutor da Lei. Mas não, ele se abdicou de tudo para ganhar outra coisa melhor: Cristo. E Cristo fez de Paulo o maior dos doutores: o doutor dos gentios. (cf2Tm 1.11).
Eu não quero ser leviano e dizer que nós precisamos nos anular como seres humanos para viver o cristianismo que a Bíblia ensina. Não! A questão aqui é renúncia e não asceticismo (Moral baseada no desprezo do corpo e de suas sensações, e que tende a assegurar, pelos sofrimentos físicos, o triunfo do espírito sobre os instintos e as paixões). É do “eu” ruim que a Bíblia fala (orgulhoso, mau, irreconciliável), e não da pessoa como um ser pessoal, inteligente, que tem domínio de existência.
O cristianismo da glória da cruz de Cristo
Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo (Gl 6.14a).
Nota: gloriar é ter orgulho de algo; e glória, é brilho, esplendor.
Para muitos da época de Paulo (principalmente os judeus), a cruz era escândalo; para os gregos, a cruz era loucura, uma irracionalidade (1Co 1.23).. Mas para Paulo ela era o poder de Deus (1Co 1.18). Ela era a sua glória.
Nesse texto, Paulo está falando de uma vangloria (gloriar) legitima, não de uma presunção descabida ou de um orgulho vazio. Realmente, se havia alguma coisa da qual Paulo pudesse se orgulhar era a cruz de Cristo.
Hoje vemos pessoas se gloriando de seu saber, de suas posses, de suas origens etc. Pessoas que estão em busca de “glória”, de status, de poder... Essas pessoas querem “dividir” a glória com Deus, mas Ele não divide a Sua glória com ninguém. (Is 42.8).
Paulo era um homem que tinha tudo para se gloriar (humanamente falando). Era instruído, sábio, espiritual, mas era humilde. Essa humildade o levou a se gloriar no objeto mais desprezível de sua época: a cruz. Por quê? Porque não pode haver cristianismo sem a cruz de Cristo.
Mas o que a cruz representa dentro do cristianismo? O próprio Paulo responde: ela é o poder de Deus (1Co 1.18); ela trouxe a paz entre Deus e o homem (Cl1. 20); nela foi cravada a nossa dívida (Cl 2.14); por ela fomos reconciliados com Deus (Ef 2.16); ela é a nossa glória (Gl 6.14). Por todos esses motivos que a cruz representa, nosso cristianismo, assim como o de Paulo, deve ser o cristianismo da glória da cruz.
Conclusão
Viver o cristianismo que Paulo vivia não é fácil. Constitui-se um desafio para todos nós morrer para o mundo, renunciar a nós mesmos e ter a cruz de Cristo como motivo para nos gloriarmos. Mas é o cristianismo que devemos praticar, pois ele é exatamente o cristianismo que Jesus ensinou.
Deus abençoe a todos.
Pb. Aparecido D. Camargo